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A Gravata

por Yves Moyen

A Gravata

Entrei no táxi. O rádio veiculava mais um depoimento na CPI dos correios. Como qualquer bom cidadão, estava cansado do bombardeio diário de denúncias de corrupção. Anestesiado, demorei um pouco para perceber o entorno...o ar climatizado e aromatizado, a cordialidade do motorista, o banco de couro, o terno e a gravata – tudo muito incomum para um táxi comum.

A corrida de trinta minutos ao aeroporto de São Paulo me incentivou a iniciar um batepapo com aquele motorista sui-generis. Procurei fazer as conexões iniciais – ele me fora recomendado por um amigo como uma opção confiável, profissional e “barata”. Fiquei curioso como ele conseguira conciliar as três variáveis. Até aquele momento ele vinha cumprindo a promessa – me apanhou no horário combinado, seu veículo assim como sua aparência estavam impecáveis. Faltava mais para ser convencido. Decidi investigar.

Altamiro era diretor de uma cooperativa de táxis em São Paulo. Já passados os minutos iniciais da corrida, ele deu continuidade à sua estratégia de marketing.

- A coisa aí fora não está fácil não. Se a gente não evoluir, é engolido. Tento sempre colocar isto lá na nossa cooperativa. Segui ouvindo atentamente.
- Outro dia quase fui linchado por meus colegas.
- Por quê?
- Disse a eles que precisaríamos ter uma melhor apresentação. Sugeri o uso da gravata. Quase apanhei.
- Como teve a idéia?
- Atendemos em uma região com grande concentração de escritórios e sedes de empresas. Nossos clientes andam engravatados.
- E?
- Disse aos colegas que seria bom ficarmos próximos ao padrão de nossos clientes. Eles esperam um mínimo de profissionalismo. Além disso, era uma forma de diferenciação da concorrência – os táxis comuns são mais baratos mas são muito comuns, e o rádio táxi é melhor na aparência mas é muito caro. Tinha espaço para fazer algo diferente.
- A gravata.
- É. Você não imagina como foi o primeiro dia. O pessoal reclamava de tudo – do calor, que a gravata enforcava, que era ridículo...fui só ouvindo e dizendo “aguardem”.
- O que aconteceu?
- Duas semanas depois nosso movimento aumentou em 30%. Ninguém acreditava. Foi tapinha nas costas pra lá, “Valeu, Altamiro” pra cá. Fechamos contratos com várias empresas já no primeiro mês de uso da gravata.
- Mudar a cabeça das pessoas não é fácil – mas pelo visto, o pessoal não se arrependeu.
- Claro, sobrou mais no bolso. E não podemos ficar só nisso. Cliente não pode pedir para ligar o “ar”. Se o dia está quente, o motorista têm a obrigação de deixar o carro sempre climatizado.
- Faz sentido, mas ainda é raro ver isto na praça.
- Por isso mesmo precisamos sair na frente. Estou sempre cutucando o pessoal para fazermos coisas novas. Temos encontros mensais e isto ajuda na troca de idéias. O pessoal conta casos de sucesso e também as besteiras que fazem.
- Muito bom.
- Sempre fui contra a cobrança de taxa de locomoção para apanhar passageiro.

Ora, o cliente liga para a central, quer pagar por um táxi nosso e nós ainda cobramos por isso? Ele já nos deu a preferência ao ligar! Não faz sentido. Já faz tempo que não cobramos esta taxa, mas a maioria ainda cobra.

- Com tudo isso você ainda cobra a tarifa normal?
- Sim. E muitas vezes cobro abaixo.
- Como assim?
- Veja o caso do seu amigo que me indicou. Ele tinha um cliente em Ribeirão Preto e ia com freqüência para lá. Cobrei uma tarifa que me dava uma pequena margem sobre o combustível. Só lucrava a partir da terceira viagem – mas fazia dez por mês.
- Desconto por volume.
- É. O pessoal da cooperativa não entendia – para mim o lucro era por cliente, e não por viagem.

A viagem chegava ao final. Não havia me preocupado em perguntar o preço da corrida – estimava em R$90,00.

- Quanto foi, Altamiro?
- R$60,00. Na volta, é só o senhor ligar quando estiver embarcando no Rio e eu lhe aguardo aqui. Boa viagem!

Me dei por satisfeito – e tentado a convidar Altamiro a vir trocar idéias com meu cliente que ainda não conhecia o poder da gravata.

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